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Posts Tagged ‘carochinha’

Esse negócio de aquecimento global está passando de todos os limites. Cês viram o tufão que deu em São Paulo ontem?

Meu, sério. Eu me tranquei com o Leôncio, meu gato, aqui no cafofo – moro num barraco na laje da casa dos meus pais – e só ouvia o vento silvando pelas frestas. As paredes de papelão balançavam. Num golpe de vento mais forte, eu senti o pobre do meu barraco sendo arrancado pelo tufão – Berenice, segura! Nós vamos voar! Foi aquela sensação de rodar, rodar, rodar, sem saber exatamente pra onde estava indo, ou como se já estivesse no céu. Por que eu acredito, totalmente… espera, esse é outro vídeo.
Enfim. O vento foi amainando, e eu senti um baque – a casa havia pousado. Peguei Leôncio e saí pra ver o que é que tava pegando.

– Leôncio, acho que a gente não está mais no Kansas. Digo, na Moreiróvia.

Aparentemente, o barraco pousou em cima de uma pobre senhora usando meias listradas de emo e sapatinhos de solas cor de rubi – louboutins, eu acho. É, mano, a casa caiu pra ela.
Tava tentando ligar pro SAMU, quando chega, saída de uma bolha, uma dona ruiva vestida de debutante dos anos 80.

– Você é uma bruxa boa ou uma bruxa má?
– Cê bebeu, tia?

Ok, me explicaram a história. Diz que meu barraco voou até a Zona Leste, em algum lugar onde a moda das mangas bufantes ainda não passou, e a tia dos louboutins era uma drag, a dona da boca naquela quebrada. Bicha Má do Leste, eles a chamavam. Tá, tá beleza. Foda-se, eu só quero voltar pra Moreiróvia. Onde é que passa o ônibus, daqui?

– Aqui só passa ônibus pro Jardim Esmeralda. Vai seguindo essa estrada de tijolos amarelos, chegando lá cê procura o Ozzy. Diz que foi a Glinda que te mandou. Ele tá me devendo uma, vai te dar uma força aí. Mas ó, tira esse tênis, vai com o louboutin da bicha que é mais chique.

Não dá pra contrariar uma ruiva histérica vestida de bolo de noiva. Eu fui. Alguém no caminho haveria de me informar onde é que passava o ônibus, afinal. Encontrei na estrada um mendigo meio doido que espantava urubu, um cara que reciclava latinhas, e o Leão Lobo, todos indo pro Jardim Esmeralda.

– Vamos todo mundo junto, tá bom? Eu não conheço essa quebrada, pode ser perigoso.

O Jardim Esmeralda até que é uma favela simpática. Uns barracos bonitinhos, de alvenaria, quase todos pintados de verde. Me levaram até o cafofo do dono do morro, o Ozzy. Ele não quis nos receber, a gente ficou do lado de fora, ouvindo aquela voz medonha, gutural.

– Quer voltar praquele fim de mundo da Moreiróvia? Pois muito bem, eu até ajudo. Mas primeiro cês tem que me dar uma força aê.

Ozzy queria que a gente desse jeito na Bicha Má da Zona Oeste. “Pra quem apagou a tia da ZL, a da ZO é bico”. Ok, bora nóis. O salto do louboutin já estava começando a incomodar.
A gente nem tinha chegado ainda na ZO, quando um bando de motoqueiros do escapamento furado nos atacou. Me pegaram, me botaram na garupa e me levaram até a casa da bicha. Maior mansão, meu, tinha ate piscina. Eu tava com o cu na mão, achando que ela queria se vingar da morte da irmã da ZL, mas ela só queria meus sapatos.

– Me dá esses louboutins, vadia!
– Nem fodendo, vem tirar.

A cacura começou a correr atrás de mim em volta da piscina. Tava foda correr de salto alto, mas meu, nunca na vida que eu ia ter dinheiro pra comprar louboutins, ela era rica, podia comprar quantos manolos quisesse. Com toda a minha ginga e malemolência eu driblei a tia, dei um rodo e a derrubei na piscina.

– Me ajuda! Eu não sei nadar!
– Te vira aí, nega.

Fui sair da mansão e os motoqueiros do escapamento furado estavam todos lá na porta. Fudeu.

– Úia, mano, a mina afogou a bruxa!

Parece que os motoqueiros não gostavam muito da patroa, não. Comemoraram, soltaram rojões, e me deram carona até o Jardim Esmeralda. Chegando lá, o Ozzy não queria acreditar.

– Tá me zoando? Eu tento matar aquela drag velha há anos! Té parece que uma paty de salto alto ia conseguir.
– Escuta aqui, mano, eu tou de salto alto mas paty é a putaquetepariu, falou? Eu sou da perifa, tá ligado? Zona Norte é banca forte, mano. Agora tu vai me dar aquela carona até a Moreiróvia ou eu vou ter que ir aí te encher de porrada?
– Atchoo!

Atchoo?
Nessas que eu tava batendo boca na janela, o Leôncio escapou e foi fuçar dentro do barraco do Ozzy. O cara devia ser alérgico, saiu no meior tranco espirrando. A gente foi ver, e o dono daquela voz gutural maligna que parecia vinda do fundo dozinferno era um moleque magrelo, espinhento e cabeludo.

– VOCÊ é o Ozzy?
– É… Pô, meu, foi mal. É que eu vim pra cá faz tempo pra uma festa que ia rolar, mas me perdi e a variant do meu pai quebrou… tive que fingir que era malvado pra comunidade aqui me respeitar, sabe? Mas faz assim, tu me ajuda a consertar a brasília e eu te dou carona até tua quebrada, pode ser?

E eu lá tinha opção?
Era uma banheira toda fodida, amarela, ano 76. Não pegava. Abri o motor e vi que tava com mau-contato na rebimbela, fiz uma gambiarra e o negócio, malemá, funcionou. Bora nóis. Ia embarcar, mas assim que aquela porra ligou o Leôncio ficou com medo do barulho e escapou pela janela. Fui correr atrás dele, e o desgraçado do Ozzy partiu sem mim!

– Volta aqui, seu filho de rapariga!
– Não posso! É contramão!
– Então breca que eu te alcanço!
– Tá sem freio!

Eu estava sozinha, sem carona, numa quebrada que eu não conhecia e onde nem passava ônibus. Sentei na guia da calçada e só não chorei por que ia borrar meu rímel. Foi quando senti um cutucão no ombro. Era a Glinda, a doida das mangas bufantes.

– Tudo bem aí?
– Tudo bem é o cacete.
– Ai, sua ingrata, não fala assim comigo. Eu só quero te ajudar.
– E eu só quero voltar pra minha quebrada, tia. Cê tem carro?
– Pra que carro quando se pode andar de louboutins, minha linda?

Glinda explicou que só precisava bater os calcanhares e repetir: “Não há lugar como o bar”. Eu achei que ela tava benlôca, mas vai tu discutir com essa gente. Não quis contrariar e fiz o que ela mandava.

– Não há lugar como o bar, não há lugar como o bar, não há lugar como o bar…

Acordei com as unhas do Leôncio nas minhas costas. Estava em casa. Na Moreiróvia.
Ou foi um sonho, ou foi flashback de todo aquele benflogin que eu tomava pra dor de garganta. Pra dor de garganta, juro.

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