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Posts Tagged ‘mulher’

O seu vestido de renda
De colo mui devassado

Mais mostrava que escondia
As partes da pecadora

– Drumão, circa 1944

flourish

Tenho certeza que todo mundo que está lendo isso aqui ouviu sobre o caso da Uniban. Tenho certeza que todo mundo que está lendo isso aqui deve aliás estar bem de saco cheio do caso da Uniban, vocês sabem, da menina que foi quase que linchada por conta de uma minissaia. Eu até comecei a escrever a respeito, mas depois pensei que tudo o que tinha que ser dito já se dito havia, as pessoas sensatas defendendo, os reaças acusando, o resto do povão no discurso de “não precisava tudo isso mas a moça é bem uma biscate, né?”. E achei por bem deixar quieto, vamos ver se vem alguma novidade.

Pois, ora pois, a novidade veio, e não foi da praia. Vejam que a respeitável universidade veio a público, BEM a público, por meio de um anúncio nos grandes jornais de São Paulo, divulgar sua nota sobre o assunto. Era um pedido de desculpas? Era direito de resposta? Era uma receita de bolo, um poema do Camões? Não, era pra divulgar – em público, BEM em público – a expulsão de Geisy Arruda, por “comportamento inadequado” e “flagrante desrespeito aos princípios éticos, à dignidade acadêmica e à moralidade”.

Pelamor, naonde que usar uma minissaia fere a “ética”? Naonde que eles se dão o direito de opinar sobre a moralidade de pessoas adultas? E veja, não estávamos falando aqui da moça andando pelada pela rua, ou de lingerie rendadinha. Era um vestido curto, desses que se usam desde pelo menos os anos 60. Talvez mais curto do que eu, ou você, leitora, nos sentíssemos à vontade pra usar, mas tapava as vergonhas altas e saradinhas da garota. O que foi condenado aqui foi a atitude da guria, que “provocava”, “ensejando, de forma explícita, os apelos de alunos”. Uma eternidade depois, ainda somos as culpadas pelo pecado original. Adão só pecou por que Eva ensejou de forma explícita a seus apelos, imagina, Adão, um inocente, um santo. Culpa da Eva por dar atenção pra cobra. Culpa da Geisy por andar rebolando de minissaia por aí, imagina, os alunos, todos uns santos. O linchamento moral foi só uma “reação coletiva de defesa do ambiente escolar” contra essa pecadora abominável. Bora jogar pedra na Geni.

Vocês que me conhecem há mais tempo, virtualmente ou na vida real, sabem que eu me exponho bastante. E vou contar pra vocês, no começo era um troço até meio inocente – fui criada entre moleques, irmãos, primos, amigos homens, era uma caminhoneira juvenil. Tudo o que eu fazia era falar sobre sexo com a mesma franqueza que eles falam, macaquear o mesmo tipo de piada e gracinha de cunho sexual que eles fazem. Quando um homem faz esse tipo de piada, as pessoas só riem. Quando uma mulher brinca com sua própria sexualidade, isso é provocação.

Não vou falar que não gosto da atenção que recebo com esse lance. Conheci pessoas muito legais, que entraram na minha vida atraídos justamente por essa minha exposição. Mas também fui muito julgada e ouvi coisas horríveis por causa disso.

Eu quero ter o direito de manifestar a minha sexualidade como bem entender. Eu quero o direito de falar sobre caralho de boca cheia – trocadilho INTENCIONAL, fazendo o favor. Eu quero o meu direito de ser biscate. E de não ser imediatamente condenada ao ostracismo social só por deixar bem claro ao mundo que eu faço e gosto de sexo.

Já disse mais de uma vez. O mundo ainda é um lugar muito cruel de se viver quando se tem uma vagina.

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– Arruma o teu quarto.
– q
– Arruma o teu quarto, JÁ, que a tia Amélia vem aqui amanhã
– Hã… bom dia?

Foi mais ou menos assim que eu fui acordada no sábado, às seis da matina. Antes ainda do café ou do bom-dia, mamãe me agraciou com uma lista de tarefas do tamanho da radial leste, pra deixar a casa pronta para a vistoria da tia Amélia.
Todo mundo tem uma tia Amélia, ainda que não se chame Amélia – a minha, por exemplo, não se chama, mas não vem ao caso. Tia Amélia tem a casa sempre limpa e arrumada, cheirando a desinfetante e a trabalho duro. Tia Amélia tem a geladeira cheia de comida boa e feita em casa, e faz questão de me empanturrar até a intoxicação quando vou visitá-la. Tia Amélia tem duas filhas mais ou menos da minha idade, ambas lindas, magras e bem casadas; uma, esposa de juiz, trabalha no setor público ganhando um salário de cinco dígitos; a outra mora em Miami com o marido, trabalha numa multinacional famosíssima na área de TI, e está esperando o primeiro filho. Pelo tom de voz de mamãe, e considerando as tarefas que me foram passadas, ela estava decidida a impressionar tia Amélia. Eu estava numa sinuca. Fui pega no meio do fogo cruzado de mais um episódio do Housewives Deathmatch.

housewife

Os leitores homens talvez estejam estranhando, mas tenho certeza que as amigas leitoras sabem do que eu estou falando. Entre mulheres, há sempre um clima de conflito não-declarado, uma competição, uma guerra fria. A gente sempre tem que ser uma profissional melhor, uma mãe mais dedicada, uma dona de casa ainda mais prendada, mais magra, mais linda e mais loira, e tudo isso em cima de um par de escarpins de salto agulha. Por vezes até menstruando. O mundo é um lugar muito hostil para quem nasceu com uma vagina.

desperate-housewives

Da minha parte, honestamente, estou pouco me fodendo. Mas se é importante para mamãe, o que é que eu podia fazer? Era ajudar ou aguentá-la jogando minha “ingratidão” na cara até o fim dos meus dias. Encarei a minha lista de tarefas, um item de cada vez.
O sábado foi todo em compras, limpezas e arrumações, com direito a mamãe de luvinhas brancas checando se estava tudo mesmo limpo. Ainda havia alguma coisa pra fazer, mas domingo, pela manhã, foi essencialmente dedicado a cozinhar. Fiquei encarregada de fazer a salada e uma sobremesa. Não podia ter chocolate, nem coco, e castanhas deixavam meu pai com azia. Pensei em pavê, mas sendo o meu tio a própria personificação do tiozinho do pavê, achei por bem pensar em outra coisa e preservar a minha sanidade de pelo menos um trocadilho infame. Decidi por uma mousse de limão; limão sempre foi território seguro na família Moreira, e essa receita específica foi testada umas quantas vezes. Para a salada, também fui pelo convencional: alface romana e tomate, não tinha como errar. Ou tinha?
Devia ser umas onze horas, e eu percebi que ainda não tinha tomado café. E ninguém teve a sensatez de comprar pão mais cedo. Nada de biscoitos, acabaram os sucrilhos. O que fazer?

– Mãe, vou dar uma colheradinha só nessa mousse pra aguentar até a hora do almoço.
– Nem pensar. Vai ficar feio.
– E esse bolo, posso abrir?
– É pro lanche da tarde. Sai de perto.
– Então posso… – Não. – E aquilo ali… – Não. – Mas esse… – Não.

Resignada, peguei um punhado de ração de gato e voltei para a senzala.

Tio e tia chegam no horário marcado. Vamos fazer sala. As perguntas de sempre.

– E então, Dani, vai casar quando?
– Nem namorando eu estou, tia.
– E como vai naquele emprego?
– Saí de lá faz tempo, tia.
– Já se formou?
– Larguei Letras há anos, tia. Estou prestando vestibular de novo.

Ela pergunta para que curso. Eu digo; o curso, aliás, um dos mais concorridos de uma universidade pública aqui de São Paulo. Ela entorta a boca em desprezo.

– E isso dá dinheiro?

Vamos, enfim, almoçar. Com a boca ocupada, a minha sanidade é poupada, eu pensei. Não consegui me livrar da tradicional infâmia do meu tio:

– Quem tá na ponta paga a conta!

dinner

Mamãe se desdobrou para forrar aquela mesa com travessas. O constrangimento dá lugar ao barulho de talheres roçando nos pratos, goladas de refrigerante e um eventual elogio. Estava tudo correndo bem, quando eu percebo ali, na salada, um verdinho em movimento. Uma lagarta, uma lagartinha milimetral, mimetizada, encontrava seu caminho por entre a alface.
Num golpe veloz, eu pinço a folha maculada, embrulho rapidamente numa trouxinha e a engulo. Peço perdão mentalmente ao deus das lagartinhas por ter dado um destino tão cruel à pobre criatura, condenada a morrer lentamente, corroída pelo ácido estomacal. A mãe olha, desconfiada.

– Mas você já não pegou salada, Dani?
– Tava afinz.

Escapamos ilesos até a sobremesa. Consigo fugir por uma hora ou duas, enquanto papai mostra ao tio os seis milhões de canais de TV que ele conseguiu no receptor de satélite pirata, e mamãe mostra à tia os seis mil casaquinhos de crochê que ela tem feito como trabalho voluntário. Desço para o gran finale, café com bolo. Tudo parece bem.
A tia se voluntaria para recolher a louça e jogar fora as migalhas.

– Que é isso, tia, nem precisa se incomodar.
– Não é incômodo nenhum, imagina.

A mãe parece preocupada. A tia volta da cozinha com um sorriso vitorioso no rosto. Mamãe cora e cala, continua calada até que as visitas se vão, e, calada, sobe para o quarto. Penso ouvir um soluço de choro.

Vou até a cozinha, dar jeito no que resta da louça, e descubro o motivo. Na lata de lixo, claramente visível sob as migalhas que a tia despejou, um pacote de mistura pré-preparada para bolo.

Nocaute.

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